O que eu faria diferente se estivesse começando o Feira FC hoje

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Se eu estivesse começando o Feira FC hoje, certamente faria algumas coisas diferentes. Não porque o projeto tenha sido construído da forma errada.

Mas porque existe uma diferença enorme entre planejar um clube de futebol e viver, na prática, tudo que acontece dentro dele.

Quando começamos, muitas decisões foram tomadas com base em experiência empresarial, estudo de mercado, planejamento esportivo e referências de outros clubes.

Hoje, depois de viver uma temporada inteira por dentro, algumas prioridades estariam organizadas de outra maneira.

Eu gastaria ainda mais tempo no desenho da operação antes de acelerar

Quando você começa um clube do zero, existe uma tentação natural de fazer tudo acontecer muito rápido.

Marca, elenco, comissão técnica, estrutura, comercial, comunicação, operação de jogo e relação com a torcida começam praticamente ao mesmo tempo. No nosso caso, conseguimos colocar muita coisa de pé em pouco tempo. Mas velocidade tem custo.

Se estivesse começando hoje, eu dedicaria ainda mais energia ao desenho dos processos internos antes de escalar a operação:

Quem decide o quê. Quem responde por cada área. Como as informações circulam. Como uma decisão esportiva conversa com o financeiro. Como comunicação, futebol, comercial e gestão se conectam. 

Parece detalhe. Não é.

Quanto mais rápido o clube cresce, mais caro fica corrigir processos mal definidos.

Eu começaria a montagem do elenco ainda mais cedo

Montar elenco não é apenas contratar bons jogadores. É construir complementaridade.

Hoje, eu daria ainda mais peso para encaixe, perfil comportamental, adaptação ao contexto da competição e equilíbrio entre características.

No início, é natural olhar muito para currículo, experiência e qualidade individual. Com o tempo, você percebe que o principal desafio está em montar um grupo que funcione junto.

Se estivesse começando o Feira FC hoje, eu ampliaria ainda mais o período de análise antes das contratações e buscaria fechar parte importante do elenco com maior antecedência.

Tempo de convivência também é ativo no futebol.

Eu separaria melhor urgência de importância

No primeiro ano, quase tudo parecia urgente.

E, quando tudo parece urgente, existe o risco de dedicar energia demais ao que está acontecendo naquele momento e de menos ao que realmente influencia o resultado futuro.

Hoje eu faria uma separação muito mais rígida entre problemas imediatos e decisões estruturais. Uma partida ruim exige análise.

Mas não necessariamente uma mudança de direção. Uma semana difícil não pode alterar um planejamento construído para meses ou anos.

Esse equilíbrio é mais fácil de entender depois que você vive a pressão do futebol.

Eu criaria alguns indicadores esportivos antes mesmo do primeiro jogo

No ambiente empresarial, medir resultado faz parte da rotina.

No futebol, existe uma tendência natural de concentrar quase toda a avaliação em vitória, empate e derrota. O placar é obviamente o indicador mais importante. Mas ele não pode ser o único.

Se estivesse começando hoje, definiria desde o primeiro dia alguns indicadores internos para entender se o projeto esportivo está evoluindo de verdade:

  • Desempenho físico.
  • Disponibilidade do elenco.
  • Evolução individual.
  • Eficiência ofensiva e defensiva.
  • Integração entre setores.
  • Tempo médio de recuperação.
  • Desenvolvimento de atletas.
  • Qualidade das decisões de contratação.

Nem todos esses dados precisam ser públicos. Mas precisam existir. Porque gestão esportiva sem informação vira opinião.

Eu estruturaria ainda mais cedo a integração entre profissional e base

Um clube não pode pensar apenas no próximo campeonato. Essa é uma das coisas que ficaram ainda mais claras para mim.

Se estivesse começando novamente, eu anteciparia parte do trabalho de formação e captação.

  • A base precisa entender como o profissional joga.
  • O profissional precisa conhecer os atletas que estão sendo desenvolvidos.
  • Scout, formação, comissão técnica e gestão precisam conversar.

Quando essas áreas funcionam separadas, o clube perde tempo e dinheiro. Quando funcionam juntas, você começa a criar identidade esportiva.

Eu protegeria ainda mais o clube da ansiedade externa

O Feira FC nasceu chamando atenção. Isso trouxe muitas oportunidades. Trouxe torcida, mídia, patrocinadores, alcance e visibilidade. Mas também trouxe expectativa muito rápido. E expectativa gera pressão.

Hoje eu entenderia ainda melhor a importância de proteger algumas decisões do ruído externo:

  • Nem toda crítica exige resposta.
  • Nem toda opinião exige mudança.
  • Nem toda cobrança precisa alterar o planejamento.

O clube precisa ouvir muito. Mas precisa decidir com critério. Essa diferença é fundamental.

Eu faria menos comparações

Quando nasce um clube novo, é natural buscar referências. Você olha para equipes que cresceram rápido, SAFs, modelos internacionais e projetos de cidades semelhantes. Isso ajuda a ampliar repertório e evitar alguns erros, mas existe um limite para esse tipo de comparação.

Se estivesse começando hoje, usaria essas referências com ainda mais cuidado. O Feira FC precisa entender profundamente o próprio contexto. Feira de Santana tem características específicas, a torcida responde de uma maneira própria, o Campeonato Baiano tem uma dinâmica particular e a realidade financeira de cada clube também muda completamente o tipo de decisão que pode ser tomada.

Benchmark é importante, mas não pode substituir identidade. Em algum momento, você precisa deixar de perguntar o que outros clubes fizeram e começar a entender qual é o melhor caminho para o seu próprio projeto.

Eu seria mais criterioso com aquilo que precisa crescer rápido

Outra percepção importante foi entender que nem todas as áreas de um clube precisam evoluir na mesma velocidade.

Algumas estruturas precisam nascer robustas porque afetam diretamente o futebol e a operação. Outras podem amadurecer gradualmente, acompanhando o crescimento da instituição.

Quando você tenta acelerar tudo ao mesmo tempo, aumenta também a complexidade, o custo e a quantidade de decisões que precisam ser tomadas simultaneamente. Hoje, eu provavelmente concentraria ainda mais energia naquilo que tem impacto direto sobre o desempenho esportivo e organizaria o crescimento das outras áreas em etapas mais bem definidas.

Isso não significa reduzir ambição. Significa entender melhor a ordem em que as coisas precisam acontecer.

O que eu não faria diferente

Apesar dos aprendizados, existe muita coisa que eu manteria.

Continuaria apostando em uma estrutura profissional desde o primeiro dia, tratando comunicação como parte estratégica do clube e buscando aproximar o torcedor do projeto desde o início. Também manteria os investimentos em infraestrutura, metas ambiciosas e a convicção de que um clube do interior pode construir relevância nacional.

A experiência não diminuiu nossa ambição.

Ela apenas tornou mais claro onde concentrar energia, quais etapas precisam de mais tempo e quais decisões precisam ser tomadas com mais critério.

Começar novamente seria diferente

Se eu começasse o Feira FC hoje, obviamente não começaria do zero. Começaria com tudo aquilo que aprendemos até aqui.

Hoje temos os acertos e os erros do primeiro ciclo, sabemos quais decisões funcionaram, quais precisam ser revistas e entendemos melhor a competição, a relação com a cidade, o comportamento da torcida e a própria dinâmica do futebol baiano.

Essa talvez seja uma das maiores diferenças entre criar um clube e entrar no segundo ciclo de um projeto.

No primeiro ano, muitas decisões são tomadas com base em projeções, referências e naquilo que você acredita que vai acontecer.

Depois, você começa a decidir também com base naquilo que realmente aconteceu.

E experiência, quando é transformada em decisão, passa a ser uma vantagem de gestão.

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