Quando começamos a estruturar o Feira Futebol Clube, o objetivo esportivo do primeiro ano era muito claro: conquistar o acesso para a primeira divisão do Campeonato Baiano.
Não conseguimos.
E acho importante começar exatamente por aí, sem tentar transformar o resultado em algo diferente do que ele foi.
O Feira FC foi montado para ser competitivo desde a primeira temporada. Investimos em estrutura, profissionais, elenco, comunicação e criamos condições para disputar o campeonato buscando o acesso.
Chegamos perto, mas estar perto não é a mesma coisa que alcançar o objetivo.
Para quem trabalha com gestão esportiva, esse tipo de situação talvez seja mais importante do que uma temporada em que tudo acontece conforme o planejado.
Porque obriga você a analisar decisões sem a proteção do resultado.
Planejamento não elimina as variáveis do futebol
Uma das primeiras coisas que aprendi como dirigente do Feira FC foi que planejamento reduz riscos, mas não elimina as variáveis do futebol.
No ambiente empresarial, normalmente conseguimos controlar uma parcela maior do processo. É possível revisar uma operação, mudar uma estratégia comercial, reorganizar uma equipe e medir o efeito dessas decisões durante um período relativamente previsível.
No futebol, o espaço para correção pode ser muito menor.
Uma competição curta transforma cada partida em uma parte relevante do resultado final. Uma sequência ruim, uma lesão, uma expulsão, uma decisão equivocada ou simplesmente um adversário melhor naquele momento podem alterar meses de planejamento.
Isso não significa aceitar o acaso como justificativa.
Significa entender quais variáveis estavam sob nosso controle e avaliar se fizemos o melhor possível com elas.
É nessa parte que começa o trabalho de gestão.
Investimento não é sinônimo de resultado esportivo
Outro aprendizado importante foi separar investimento de garantia de resultado.
O Feira FC nasceu com uma estrutura que não é comum para um clube em seu primeiro ano. Construímos uma operação profissional, trouxemos jogadores experientes e procuramos oferecer boas condições de trabalho desde o início.
Tudo isso aumenta a probabilidade de competir bem.
Mas não existe orçamento capaz de garantir acesso.
Dinheiro consegue melhorar infraestrutura, contratar profissionais, investir em tecnologia e criar um ambiente mais preparado. O que ele não consegue fazer é substituir tempo de trabalho, entrosamento, tomada de decisão e execução dentro do campo.
Essa diferença parece óbvia depois que você vive o futebol por dentro.
Antes, nem sempre é.
Um elenco competitivo não significa necessariamente um time pronto
Também existe uma diferença importante entre reunir bons jogadores e construir uma equipe.
Quando analisamos um atleta individualmente, podemos avaliar currículo, características técnicas, números e comportamento.
Mas futebol é interação.
Um jogador pode ser excelente e não encontrar o melhor encaixe dentro de determinada dinâmica. Uma equipe pode ter bons nomes e ainda precisar de tempo para desenvolver comportamentos coletivos.
Isso muda bastante a forma como penso montagem de elenco hoje.
Contratação não pode ser analisada apenas pelo nome ou pela qualidade individual. Perfil, função, complementaridade e contexto precisam entrar na decisão com o mesmo peso.
Para o próximo ciclo do Feira FC, esse aprendizado é extremamente relevante.
A velocidade do projeto também cobra um preço
Criamos muita coisa em pouco tempo.
Clube, marca, estrutura esportiva, equipe administrativa, comunicação, torcida, operação de jogo e elenco precisaram evoluir praticamente ao mesmo tempo.
Existe uma vantagem evidente nisso: velocidade.
Mas existe também uma dificuldade.
Quando muitas áreas estão sendo construídas simultaneamente, processos que clubes mais antigos tiveram anos para ajustar precisam amadurecer em meses.
Algumas decisões nós acertamos. Outras, hoje eu faria de maneira diferente.
É natural que seja assim, principalmente para uma instituição que estava disputando sua primeira competição profissional. O que não pode acontecer é usar a juventude do projeto como desculpa para repetir os mesmos erros.
O Feira FC não precisa começar novamente
Talvez essa seja a principal diferença entre o primeiro e o segundo ciclo do projeto.
No início, praticamente tudo precisava ser criado.
Agora, existe histórico.
Temos dados de uma competição inteira, conhecemos melhor o ambiente do futebol baiano, entendemos com mais profundidade as características do campeonato, vivemos a pressão das partidas decisivas e conseguimos observar na prática como nossa estrutura responde a diferentes situações.
Isso muda completamente a qualidade das decisões.
O planejamento deixa de ser baseado apenas em projeções e passa a ser construído também sobre experiência própria.
Para um clube jovem como o Feira FC, isso tem muito valor.
O que muda daqui para frente?
Não acredito em mudar tudo porque um objetivo não foi alcançado.
Também não acredito em manter tudo apenas porque o projeto apresentou bons sinais em outras áreas. O trabalho agora é separar aquilo que funcionou daquilo que precisa evoluir.
Isso envolve análise esportiva, montagem de elenco, processos internos, calendário, integração entre departamentos, estrutura de decisão e preparação para a próxima competição.
Algumas mudanças serão visíveis para o torcedor. Outras provavelmente nunca serão percebidas externamente.
Mas são justamente essas decisões internas que determinam se um clube está realmente aprendendo ou apenas repetindo um discurso de evolução.
Resultado continua sendo o principal indicador
Existe uma discussão frequente no futebol sobre avaliar projetos além do placar.
Eu concordo. Um clube também precisa observar crescimento de torcida, receita, infraestrutura, formação de atletas, comunicação, marca e capacidade de criar novas oportunidades.
O Feira FC avançou bastante em várias dessas áreas no primeiro ano. Mas existe um cuidado importante aqui. Indicadores institucionais não podem ser utilizados para relativizar resultados esportivos.
Nós queríamos o acesso. Não conseguimos. Reconhecer os avanços fora do campo não muda isso. A função da gestão é conseguir analisar as duas coisas ao mesmo tempo.
E agora?
Agora temos mais informação do que tínhamos quando começamos. E, para quem administra um clube de futebol, informação precisa virar decisão.
Meu primeiro ano como dirigente do Feira FC mudou bastante a maneira como enxergo gestão esportiva.
Entendi melhor o peso do tempo, a dificuldade de construir um elenco, a influência do calendário, a velocidade das decisões e principalmente a diferença entre montar uma boa estrutura e transformar essa estrutura em resultado dentro do campo.
O objetivo do Feira FC não mudou. O que mudou foi o nosso nível de conhecimento sobre o caminho necessário para chegar até ele.
No primeiro ano, construímos um clube enquanto disputávamos uma competição. No próximo, começamos com algo que não tínhamos antes: experiência.

