Antes de entrar no futebol, grande parte da minha experiência estava ligada ao ambiente empresarial. Orçamento, metas, contratação de pessoas, indicadores, planejamento, processos e cobrança por resultado sempre fizeram parte da minha rotina.
Quando comecei a participar da construção do Feira Futebol Clube, naturalmente levei essa forma de pensar comigo. Muitas dessas ferramentas continuam sendo fundamentais e ajudaram bastante na estruturação do projeto. Outras, no entanto, precisaram ser adaptadas conforme comecei a entender melhor as particularidades da gestão esportiva.
Um clube precisa ser administrado com profissionalismo, ter processos, responsabilidade financeira e critérios claros para tomar decisões. Mas isso não significa que possa ser administrado exatamente como uma empresa tradicional.
Na prática, essa diferença muda bastante coisa.
O cliente pode trocar de empresa. O torcedor não funciona assim
Talvez a primeira diferença esteja na relação com quem está do outro lado. Em uma empresa tradicional, existe normalmente uma relação de consumo. Se uma experiência deixa de atender às expectativas, o cliente pode simplesmente escolher outra opção.
No futebol, a relação é muito mais complexa. O torcedor não escolhe um clube apenas por preço, qualidade de atendimento ou conveniência. Existe identidade, memória, família, território e uma ligação emocional que muitas vezes começou antes mesmo de qualquer relação de consumo.
Quando criamos o Feira FC, isso ficou muito claro. Não bastava montar uma boa estrutura, criar uma comunicação eficiente ou oferecer uma experiência interessante no estádio. Precisávamos fazer com que as pessoas enxergassem naquele clube algo que também pertencesse a elas.
É por isso que não gosto muito de tratar torcedor simplesmente como cliente. Ele compra ingresso, camisa e produtos, claro, mas a relação não termina na transação. Um torcedor quer participar, cobrar, comemorar, discordar e sentir que faz parte da história da instituição.
Pertencimento não é algo que aparece em uma planilha no mês seguinte. É construído ao longo do tempo.
Nem todo resultado pode ser previsto
No ambiente empresarial, boa parte do trabalho de gestão consiste em reduzir variáveis. Quanto mais dados, histórico e processos existem, maior tende a ser a capacidade de prever cenários e tomar decisões com algum nível de segurança.
O futebol também utiliza dados, planejamento e análise. Só que existe uma quantidade de variáveis que dificilmente pode ser controlada da mesma maneira.
Você pode passar uma semana inteira preparando uma partida e ter um jogador expulso nos primeiros minutos. Pode montar um elenco competitivo e enfrentar uma sequência de lesões. Pode criar várias oportunidades durante um jogo e perder em uma única jogada.
Nada disso elimina a responsabilidade da gestão. Pelo contrário. Quanto menos controle existe sobre determinadas variáveis, maior precisa ser a qualidade daquilo que realmente pode ser controlado.
Estrutura, preparação, contratação, ambiente, processos e tomada de decisão continuam sendo responsabilidade do clube. O que não podemos fazer é acreditar que uma boa gestão transforma futebol em uma ciência exata.
Uma decisão correta pode produzir um resultado ruim
Esse talvez tenha sido um dos aprendizados mais importantes do meu primeiro ciclo como dirigente do Feira FC.
No futebol, existe uma tendência muito forte de avaliar qualquer decisão a partir do resultado seguinte. Se o time venceu, a decisão parece correta. Se perdeu, rapidamente começa a ser questionada.
Só que gestão não pode funcionar dessa forma.
É possível tomar uma decisão bem fundamentada e ela não produzir o resultado esperado. Da mesma maneira, uma decisão ruim pode eventualmente funcionar. Se analisarmos tudo apenas pelo placar, corremos o risco de confundir resultado com qualidade de processo.
Isso não significa relativizar derrota. O resultado esportivo precisa ser cobrado e continua sendo a principal entrega de um clube. Mas também precisamos entender como aquele resultado foi produzido.
Caso contrário, cada vitória confirma tudo e cada derrota coloca tudo em dúvida. Nenhuma instituição consegue construir consistência mudando de direção dessa maneira.
Gestão de pessoas pesa ainda mais no futebol
Outra coisa que ficou muito mais clara para mim depois que passei a viver o futebol por dentro é o peso da gestão de pessoas.
Quando você avalia um jogador apenas por números, currículo ou características técnicas, está vendo somente uma parte da decisão. Um atleta chega ao clube com um momento de carreira, família, confiança, histórico, expectativas e uma capacidade própria de adaptação.
Dois jogadores com características semelhantes podem responder de maneiras completamente diferentes ao mesmo ambiente.
Por isso, contratação não pode ser apenas uma análise técnica ou financeira. Perfil, comportamento, contexto e capacidade de integração também fazem parte da decisão.
O mesmo vale para comissão técnica e demais profissionais do clube. Futebol é uma atividade extremamente dependente de relações humanas. Processos ajudam a organizar essas relações, mas não conseguem substituí-las.
O tempo funciona de outra forma
Também existe uma diferença importante na velocidade das decisões.
Em muitos negócios, é possível testar uma estratégia por meses antes de concluir se ela funcionou. No futebol, principalmente em competições curtas, esse tempo simplesmente não existe.
Foi algo que sentimos no primeiro ano do Feira FC. Estávamos construindo uma instituição praticamente ao mesmo tempo em que disputávamos nosso primeiro campeonato.
Em poucos meses, era preciso montar elenco, estruturar departamentos, organizar operação de jogo, desenvolver comunicação, criar relação com a torcida e competir.
Nesse ambiente, uma das maiores responsabilidades de um dirigente é saber diferenciar o que precisa de mudança imediata daquilo que ainda precisa de tempo para amadurecer.
Nem todo problema pode esperar. Mas também nem todo problema deve gerar uma reação imediata.
Futebol não pode ser administrado pela ansiedade
Talvez essa seja uma das maiores armadilhas para quem entra na gestão esportiva.
O futebol produz estímulos para decisões emocionais praticamente todos os dias. Depois de uma vitória, tudo parece estar no caminho certo. Depois de uma derrota, surgem inúmeras soluções diferentes para problemas que, às vezes, nem sequer existem da maneira como estão sendo apresentados.
O dirigente recebe opinião de torcida, imprensa, atletas, empresários, comissão técnica, parceiros e pessoas próximas. Todo mundo tem uma leitura sobre o que deveria ser feito.
Ouvir faz parte do trabalho. Reagir a tudo, não.
Com o tempo, comecei a entender melhor a importância de separar informação de ruído. Algumas críticas mostram problemas reais e precisam ser consideradas. Outras são apenas consequência natural de um ambiente extremamente emocional.
Gestão esportiva exige velocidade para tomar decisões. Mas velocidade não pode ser confundida com impulsividade.
Isso não significa abandonar a lógica empresarial
O fato de um clube não funcionar como uma empresa tradicional não significa que o futebol deva rejeitar práticas empresariais.
É justamente o contrário.
Clubes precisam ter orçamento, metas, governança, indicadores, processos e responsabilidade financeira. Precisam saber quanto gastam, onde investem, como contratam e quais resultados esperam de cada área.
A profissionalização do futebol passa necessariamente por esse tipo de estrutura.
O erro está em acreditar que essas ferramentas podem ser simplesmente transportadas para um clube sem qualquer adaptação.
Depois da minha experiência no Feira FC, continuo acreditando que muito do conhecimento empresarial pode contribuir com o futebol. Mas hoje entendo melhor que essas ferramentas precisam respeitar a lógica do esporte.
O que o Feira FC mudou na minha maneira de pensar gestão
Quando começamos o Feira FC, eu acreditava que grande parte da minha experiência empresarial poderia ser aplicada diretamente na construção do clube.
Hoje continuo acreditando nisso, mas com uma diferença importante.
As ferramentas podem ser aproveitadas. A lógica precisa ser adaptada.
Uma boa gestão esportiva precisa combinar disciplina financeira com conhecimento de futebol, dados com sensibilidade humana, planejamento com capacidade de adaptação e visão de longo prazo com a urgência que o resultado esportivo naturalmente impõe.
Talvez seja exatamente essa combinação que torne administrar um clube tão complexo.
O futebol precisa cada vez mais de profissionalização.
Só não pode ser tratado como se fosse uma empresa qualquer.

